Sapa e os terraços de arroz no Vietnã

Sapa, no Vietnã, é um daqueles lugares que encanta, seja pelas belas paisagens, seja pela cultura dos grupos étnicos que lá vivem. A região é famosa pelos belíssimos terraços de arroz, o que é enriquecido pela experiência das trilhas que passam por eles.

Se você não gosta de trilhas longas, é possível se hospedar na cidade e fazer caminhadas curtas. Porém, se for amante do trekking como eu, pode escolher entre diversas opções de caminhadas, de 1 até vários dias.

Minha caminha no trem de Hanói a Sapa
Sapa

Como tirar o visto para o Vietnã

Como é meu primeiro relato sobre o Vietnã, antes de tudo, vou descrever brevemente com funciona a questão do visto, obrigatório aos brasileiros. Isso porque o procedimento deve ser feito previamente. Existem duas maneiras de obter o visto.

Uma delas é o Visa on Arrival. Existem várias empresas que organizam a documentação do visto para você, e é importante encontrar uma confiável, como a Vietnam-Visa, por exemplo. Pesquise a reputação das empresas antes de solicitar o visto. Funciona assim: eles fazem uma espécie de carta-convite, e você conclui o processo do visto pessoalmente lá na imigração. Essa forma de visto só funciona se você entrar no país por um dos aeroportos.

Início da trilha
Paisagem já surpreendente

Depois que eles te enviarem a carta e o formulário, você deve preencher este último à mão e levar consigo esses documentos e mais 2 fotos 4×6 (fotos de passaporte). Lá no aeroporto, é só procurar as indicações de “Landing Visa” e concluir o procedimento pagando a taxa do visto. No site da Vietnam-Visa tem os preços atualizados, mas no momento da escrita deste texto, o valor da empresa é de 21 dólares se for 1 pessoa e se for para 1 mês e única entrada. As demais variações constam no site. E o valor lá na imigração para o carimbo é de 25 dólares. Se você esquecer as fotos, terá de pagar mais na hora.

A outra maneira é enviando seu passaporte para a Embaixada do Vietnã, que fica em Brasília. Se você não morar em Brasília, vai precisar enviar o seu passaporte pelos Correios. Essa forma é boa se você precisa se programar com antecedência, e funciona para entrada tanto por aeroportos quanto por terra. No site da Embaixada do Vietnã, em Brasília, tem todo o passo a passo com as documentações que você precisa enviar. É interessante enviar um e-mail solicitando informações atualizadas antes de aplicar o pedido ([email protected]). Um visto nas mesmas condições que descrevi no procedimento do Visa on Arrival, mas feito na embaixada vietnamita no Brasil, sai hoje por R$ 150,00 e mais a taxa de retorno pelos Correios (de R$ 50,00). Ou seja, o preço para tirar antecipado no Brasil ou para o Visa on Arrival é semelhante.

Minha guia
Admirada com a paisagem

Quando ir?

De março a abril os campos de arroz estão mais secos, mas o clima é bem agradável. Nessa época os campos começam a ser arados e o arroz começa a ser plantado. Entre maio e agosto é a temporada de chuvas, e a época menos aconselhável a ir. Entre setembro e novembro o arroz é colhido e as paisagens estão exuberantes. De dezembro a março é o inverno, quando faz bastante frio.

Eu fui justo em dezembro, mas por sorte não estava tão frio, só à noite que esfriava bastante. Em qualquer época que você vá, é interessante levar uma capa de chuva.

Terraços de arroz
Terraços de arroz

Como chegar?

Sapa fica a pouco mais de 30 km da fronteira da China. O ponto de partida em geral é a cidade de Hanói. Existem 3 formas de chegar vindo de Hanói.

Eu fui de trem, a maneira mais confortável, porém a mais cara. São cerca de 8,5 horas de viagem no trem noturno. São vagões leito bem confortáveis, com cama, ar-condicionado e direito a lanchinho. No meu caso, pedi para a agência com quem ia fazer a trilha (da qual vou falar adiante) me providenciar as passagens de trem. No site da minha agência, a Sapa Sisters, estão os horários e preços. Fora isso, existem outras agências que vendem a passagem, como a Et-Pumpkin  e a Livitrans. No caso, a passagem é de Hanói até Lao Cai. De Lao Cai a Sapa são 37 km e há miniônibus saindo a todo instante para o percurso. Eu combinei com a minha agência, a Sapa Sisters, de eles me buscarem na estação de trem, e eles me cobraram 7 dólares por me buscar e mais um café da manhã antes de iniciar a trilha.

É maravilhoso!
Tudo alagado

A segunda maneira de chegar é de ônibus, opção mais barata que o trem. São 6 horas de viagem e os valores por percurso estão na faixa de 15 dólares. Aqui estão exemplos de empresas de ônibus que fazem o percurso: Good Morning Sapa, Ha Son Hai Van, Sapa Express, Inter Bus Lines e Xe São Viet Bus. Como não fui de ônibus não sei dizer a melhor opção e se é tranquilo de comprar na hora a passagem.

De Hanói a Sapa são 319 km, a terceira forma de chegar é que já ouvi dizer que algumas pessoas alugam moto e fazem o percurso.

Esta dá pra ter ideia da trilha
I love rice, baby!

A agência

Eu escolhi a Sapa Sisters Trekking Adventures por diversas recomendações na internet e não me arrependi. Essa empresa de trekking pertence à minoria étnica Hmong e tem sua base na bela região montanhosa de Sapa. É a única de propriedade inteiramente feminina na região e, como viajante solo, isso me atraiu também.

Os Hmong enfrentam níveis muito altos de pobreza e o turismo está gerando boas oportunidades para elas, que ajudam suas famílias e comunidades a prosperarem. A empresa foi fundada por dois artistas da Suécia/Polônia e quatro mulheres das comunidades locais. A ideia foi dar empregos decentes a jovens mulheres, num empreendimento autossustentável, sem ações de agências externas. Fazer essa aventura com elas é uma forma de ajudar a comunidade.

Terraços de arroz
hum, vontade de comer arroz! rs

Na sociedade Hmong, os homens tendem a ter mais poder público e social que as mulheres. Desde o nascimento, as mulheres Hmong são consideradas “pertencentes às famílias de seus maridos”, porque quando as mulheres se casam, elas devem deixar sua família para viver o resto de suas vidas com seus maridos e sogros e se juntar a seu clã ancestral e obter sua identidade. Mesmo assim, muitas garotas Hmong, como as de Sapa Sisters, aprenderam inglês fluente, além de muitas outras línguas.

A questão dos casamentos forçados/arranjados é muito complexa. Há também uma aceitação generalizada do abuso conjugal e as mulheres são discriminadas por se divorciarem ou se separarem de seus maridos, o que significa que muitas mulheres continuarão a permanecer em relacionamentos abusivos ou insatisfatórios. Além disso, nos últimos 10 anos tem havido um crescente nível de tráfico de mulheres para a China – para fins de casamentos vendidos e prostituição. Apesar de todas estas experiências e pressões sociais negativas que as meninas e mulheres Hmong enfrentam, elas estão fazendo mudanças positivas por sua própria iniciativa, com as Irmãs Sapa sendo um exemplo muito importante disso.

Uma visão do alto
São fascinantes os formatos

A iniciativa Sapa Sisters permitiu que essas mulheres Hmong ganhassem muito mais do que elas ou suas famílias já tiveram antes. No nível da família, isso permitiu que fizessem coisas que costumavam ser muito difíceis, como economizar dinheiro para o futuro de seus filhos, comprar terras agrícolas e renovar as casas de suas famílias de bambu para edifícios mais permanentes de madeira e telhado.

É importante ressaltar que muitos maridos das Irmãs Sapa também veem os benefícios econômicos de suas esposas trabalharem, e agora as apoiam assumindo o cuidado dos filhos e da casa enquanto elas estão trabalhando. Numa sociedade na qual os homens são tradicionalmente os principais provedores, enquanto se espera que as mulheres permaneçam em casa, esse é um nível importante de empoderamento para essas mulheres, do qual suas filhas e futuras comunidades também se beneficiarão um dia. Ademais, isso ajuda os benefícios econômicos a permanecerem na comunidade e impede que vazem para as empresas maiores administradas pelo Vietnã, que já comandam a maior parte da indústria do turismo.

Minha guia (à direita) cortando cana
Meus terraços de novo rs

Minha trip

Eu escolhi no site das Sapa Sisters um roteiro de 2 dias de trekking, com uma noite numa casa de família. O tour inclui a hospedagem, a guia, todas as refeições, exceto bebidas, e o transporte de volta para Sapa ao término do passeio. Existem guias pela cidade oferecendo tour na hora, mas me disseram que muitas vezes esses passeios não são muito aconselháveis e é melhor escolher uma agência com boa reputação previamente. Pode “dar zebra” e você não terá o respaldo de uma agência. Fora isso, a quantidade de turistas por grupo nesses serviços contratados na rua deve ser bem maior. Outro fator é que é interessante fazer um turismo responsável, tendo certeza de que você está ajudando as comunidades locais e preservando as trilhas.

Buscaram-me na estação de trem no horário combinado e em Sapa recebi as explicações do trekking. Eu deixei minha bagagem na agência, e fui para o roteiro somente com uma mochila pequena com roupa e tênis para a caminhada e roupa para frio à noite. Na agência, se precisar, tem um chuveiro que pode usar à vontade.

Paisagens lindas!
Aqui as primeiras casas de um vilarejo

A cidade de Sapa me causou uma impressão excelente, apesar de eu só ter passado por ela. Havia muitas lojas, restaurantes e hospedagens. É uma cidade típica de montanha, com muitas pessoas se preparando para os mais diversos trekkings. Isso me fascina!

Na agência eu conheci minha guia. Ela tinha cerca de 25 a 30 anos, mas aparentava muito mais. Ela estava designada para guiar apenas a mim, o que foi excelente, pois os caminhos que fizemos estavam sempre vazios de turistas. Nós conversamos um pouco e ela me mostrou algumas opções de roteiro, como por exemplo:

Dia 1. Sapa – Sa Seng – Ha Thau – Giang Ta Chai

Dia 2. Giang Ta Chai – Su Pan – Sapa

ou

Dia 1. Sapa – Y Linh Ho – Lao Chai (lunch) – Ta Van (Homestay)

Dia 2. Ta Van – Giang Ta Chai (lunch) – Su Pan – Sapa

Mais casas entre os terraços
Então… no Vietnã isso pode rs
Já tenho habilidade!

Eu não entendo nada desses nomes! Pela explicação dela, eu poderia fazer um caminho seguindo só pelo alto das montanhas, ou então um caminho indo para a base e subindo um pouco. Eu realmente não tinha ideia do que escolher. Existem outros vilarejos que dá para visitar fora esses. Há muitas cachoeiras na região também, lugares incríveis. Porém, pela época, ela me aconselhou a pegar uma opção mais pela base e subindo pouco as montanhas, pois poderia haver neblina atrapalhando a vista se subisse muito. Eu aceitei a sugestão dela, disse que amava fotografia e que confiava que ela me levasse nos lugares mais lindos que fosse possível nos 2 dias que eu tinha. Mas na verdade, eu não sei dizer se segui algum desses roteiros ou algo que nem estava neles!

Finalmente, iniciamos a caminhada do primeiro dia. Logo no início já me deparei com incríveis cenários de campos de arroz, apesar de meio distantes. Minha guia foi sempre muito solícita e amável, tanto para tirar minhas fotos quanto para responder qualquer dúvida sobre tudo que eu quisesse perguntar. Um anjo em forma de pessoa!

Melhor rolinho primavera da minha vida! NHAMY!!!!
Continuando depois de almoçar
Olha como o caminho é estreito

Passamos por paisagens belíssimas. À medida que adentrava mais os terraços de arroz o visual ainda melhorava. Eu não tenho ideia de quanto andei em cada dia. Acredito que entre 10 e 15 km pelo menos. Porém, a caminhada não foi cansativa em momento algum. É bem tranquilo. E paramos muito para fotos, ou para ela me explicar curiosidades da região.

Paramos para almoçar. Não entendo muito de gastronomia, mas no Vietnã em geral, achei que a comida se assemelha muito à da china, e ainda mais nessa região, por estar bem próxima da fronteira. Melhor comida chinesa da vida (no Vietnã)! Comi o melhor rolinho primavera da minha vida também, totalmente diferente desses que vendem no Brasil!

Aprendendo a andar aí no meio
Vixi, no meio da trilha!
Passado o susto…

Depois mais outro tanto de caminhada. Ela me explicava sobre as plantas, elas usam uma planta verde-azulada para fazer tinta e, assim, colorir os tecidos que são matéria-prima dos produtos que vendem. Além disso, a cannabis (ilegal para consumo) é usada para tecer e fazer roupas.

Chegamos na casa de família que ia dormir. O lugar era ótimo. O único quarto do local era coletivo, mas havia muitas camas e cobertores grossos, pois faz muito frio à noite. O chuveiro era quente e havia energia elétrica para carregar meus gadgets.

Como esse lugar pode ser tão simples e perfeito?
Demonstração de frio à noite na casa de família
Brinde vietnamita que aprendemos

Outros 5 turistas da Europa e América se juntaram para dormir nessa casa. Todos estavam bastante animados com o dia, e nos juntamos ao redor de uma mesa bem farta e variada, com opções de culinária típica para todos. Depois de conversarmos até tarde dormi com conforto na minha cama desta noite. No dia seguinte o café era mais ao modo americano: panquecas e banana.

Na caminhada do segundo dia passamos a subir os morros com terraços de arroz. Tive de aprender a andar me equilibrando entre os terraços, o que rendeu muita diversão e boas fotos.

Jantar na casa de família
Este é o café da manhã
Chapéu típico vietnamita

Além disso, passamos numa pequena cachoeira também. A única coisa que poderia incomodar seria o fato de as pessoas no caminho serem bem insistentes para vender os diversos produtos de artesanato, mas eles afinal vivem disso.

Minha guia me disse também que na comunidade todos têm tarefas, inclusive as crianças. A gente pensa sempre em não estimular trabalho infantil de forma alguma. Mas da maneira que ela me explicou parecia algo tranquilo, não escravizador. No sentido de quando uma família dá pequenas tarefas a uma criança para ensinar responsabilidade. Pelo menos essa foi minha impressão. Eu vi as crianças carregando gravetos pelas trilhas, por isso perguntei.

Agora é a hora de se equilibrar
Depois acostuma
Craques!

Paramos para almoçar e escolhi outro dos meus pratos preferidos no Vietnã, a noodle soup, que para mim não se compara às que são servidas na Liberdade em São Paulo nem a que se vende na Tailândia ou outros países vizinhos.

Assim terminou meu tempo com minha guia. Do restaurante, ela me encaminhou para o moto táxi que me levaria de volta a Sapa. E de lá, peguei minhas coisas e retornei para pegar o trem de volta para Hanói.

Lá loooonge!
Isso não cansa!

Não tenho palavras para descrever minha experiência com minha guia e na casa de família que pernoitei. Eu gostaria de ter contratado um trekking com um dia a mais pelo menos, apesar de 2 dias já dar para conhecer bem. Mas gostei tanto que queria mais! Acho que posso dizer que foi um ponto alto de minha viagem tanto pelo Vietnã quanto pelo sudeste asiático. Com certeza voltarei à região para fazer outros roteiros.

Minha noodle soup <3
Cachoeirinha no caminho
Últimos terraços

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